A felicidade do médico que virou padeiro.

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A felicidade do médico que virou padeiro.

Escrito por Armstrong Lemos, advogado.

O homem e suas disputas. Muitas dessas consigo mesmo, e quando não, com a vaidade da pressão exercida pela família, pelos amigos, pelos status venerados pela sociedade. Enfim, por uma série de variáveis que fazem do ser humano um turbilhão de desejos e aspirações, tendo por objetivo, a priori, a sua própria felicidade.

Ser feliz, dentro de um modelo social escolhido ou imposto pelo destino – pois há aqueles que não conseguem ver outra realidade diferente daquela imposta a si- é, ao que parece, o desejo da maioria da humanidade, ou quem sabe da sua totalidade, afinal quem é quê, em sã consciência quer ser infeliz voluntariamente?

Tenho me perguntando sobre o excesso de pessoas com ansiedade, depressão e outros distúrbios do corpo que têm a sua origem no reflexo do íntimo (da alma, para ser mais claro).

O mundo do status, da busca pelo destaque constante, tem sido potencializado pelas redes sociais que criou uma falsa ilusão, principalmente na juventude, de que o material, aquele que luxa, que se exibe, que tem mais curtidas e seguidores, é mais importante na sociedade, e por tanto, mais feliz.

No nosso país, em tempos bem recentes, viu-se um excluído social apoderar-se dessa ilusão das redes sociais, tornando-se um popstar sob o sofrimento de uma mulher casada que por uma situação que não nos convêm teorizar para entender, traiu o marido com um morador de rua, que após a exposição virou meme de internet, com uma mão na ilusão e outra na ignorância.

Hoje, por certo, ninguém vê ou ouve falar desse fenômeno passageiro da internet.

Mas há outros ícones, e para não ficar chato, citarei apenas um, vindo do nosso Maranhão, que numa canção inocente de cor forte, tornou-se querido do público juvenil, e como desdobramento viu a sua vida mudar em luxo, carrões e outras facilidades que ao certo não sabemos se são reais ou ilusões da nova mídia, no entanto, o que mais me chocou foi ver aquele inocente homem, que tinha o sonho de alcançar fama por meio de suas canções poéticas, ao seu modo, materializando e banalizando as relações humanas de afeto ao expor uma pretendente em rede nacional como se essa quisesse apenas o seu dinheiro, duvidando, inclusive, da sua capacidade de amar e ser amado de verdade

O mundo dos bytes, do cifrão, das curtidas e seguidores criou no imaginário popular a falsa ilusão do que é a felicidade, e isso impulsiona o vazio que as pessoas sentem, que muitas das vezes não são vistas nas fotos bem produzidas com filtros de aplicativos.

Os filtros expõem oque se quer ver, de forma aperfeiçoada, mas não exteriorizam o vazio da alma dos modelos de biquinhos e bundinhas arrebitadas da internet.

O desejo em ser feliz, é matéria complexa de ser analisada, e eu, este pobre ignorante, atreve-se a buscar uma análise mais profunda dela, neste artigo pequeno, que mais parece um desabafo da impressão preocupante dos nossos tempos modernos.

Quando eu era criança, me perguntavam o que eu queria ser, e eu dizia sempre que queria ser advogado, pois já tinha em vista a busca pela justiça, talvez pela minha condição social de excluído.

Se me perguntassem hoje, diria, quero ser feliz, pois advogado já sou.

Então poderás me perguntar: não és feliz? Digo que sou, dentro da compreensão de que felicidade não é um conceito pronto, é movimento, assim como é a vida e as suas fases.

E o médico? Ah, por bem, não esqueci não.

Às vezes pensamos que encontraremos a felicidade em uma meta de vida que trará a bonança financeira, e dessa bonança a felicidade advirá por completa.

Algumas pessoas julgam as escolhas das outras (nem sempre são escolhas) pelos status, e pensam que um pequeno campesino, um homem do campo, a tia da cantina ou qualquer profissional menor remunerado não é feliz por não ostentar o status que a sociedade impôs como padrão de sucesso.

Esta semana, no programa Pequenas Empresas e Grandes Negócios da TV Globo, edição televisionada do dia 12 de janeiro de 2023, foi exibida uma matéria de um homem de coragem que largou o status social para viver o desejo da sua alma.

O ex-cirurgião Sérgio Meira, depois de 24 anos dedicados à medicina, trocou o jaleco pelo avental de cozinha e largou a profissão mais desejada do país, para montar uma padaria gourmet em Jundiaí-SP.

Para a nova etapa da vida, preparou-se em diversas áreas e mesmo sendo o dono, é também o chefe gourmet, ou no popular, o padeiro chefe, elogiado pelos clientes.

Não menosprezo a medicina, pelo contrário, sou árduo defensor da sua popularização, como a advocacia e outras profissões são hoje, e não entrarei nesse debate, pois não é o ponto central deste artigo reflexivo.

Quero exaltar a coragem de um homem que largou a profissão de destaque, onde disse sofrer cargas excessivas de estresse, para buscar a felicidade em outra atividade, que aos olhos da sociedade iludida poderia ser menos nobre.

Aprendi com aquele homem – que não tenho nenhum tipo de aproximação pessoal, pois moramos em regiões distantes do mesmo país – que vi na TV em uma manhã de domingo, quando me encontrava deitado despretensiosamente no sofá, mudando de canal, uma lição que nunca esquecerei: a felicidade não tem fórmula pronta, nem etiqueta marcada.

Quer ver a reportagem? Acessa o link aqui